Bastidores do Festival de Parintins revelam histórias de trabalho, tradição e geração de renda

Antes da disputa começar na arena do Bumbódromo, o Festival de Parintins (a 369 quilômetros de Manaus) movimenta uma extensa rede de profissionais que atuam nos bastidores da festa. Costureiras, artistas plásticos, soldadores, carpinteiros, aderecistas e paikicés integram uma cadeia produtiva que transforma cultura em trabalho e renda para centenas de famílias.
Realizado pelo Governo do Amazonas, por meio da Secretaria de Cultura e Economia Criativa, o Festival impulsiona diferentes segmentos da economia criativa, gerando oportunidades em Parintins e em outros municípios do estado. Em muitos casos, os conhecimentos utilizados na construção do espetáculo são transmitidos entre gerações, fortalecendo tradições familiares e ampliando a circulação de renda na região.
No Boi Caprichoso, histórias de diferentes profissionais mostram como a relação com o boi-bumbá ultrapassa a arena e se conecta ao cotidiano de quem participa da construção do espetáculo.
Costura que atravessa gerações
A relação de Ana Léa Ferreira com o Boi Caprichoso começou ainda na infância, na Escolinha de Artes Irmão Miguel de Pascali. Antes de atuar nos bastidores, participou das tribos coreografadas do boi. Há cinco anos ela integra o ateliê de costura da agremiação.
A atividade faz parte da história de sua família. Sua mãe trabalhou durante 12 anos na confecção das fantasias do Caprichoso e a incentivou a seguir o mesmo caminho. “Minha avó ensinou minha mãe e minha mãe me ensinou. Até os homens da família sabem costurar. É um conhecimento que foi passado de geração em geração”, relata.

Segundo Ana Léa, o trabalho realizado durante o festival representa uma importante complementação de renda para muitas famílias. “Esse trabalho dentro do ateliê é muito importante para a nossa família e para outras costureiras. Muitas pessoas conseguem investir em saúde, comprar equipamentos e se aperfeiçoar profissionalmente. É uma atividade que contribui diretamente para o sustento de muitas casas”, afirma.
Além do retorno financeiro, ela destaca o significado de ver o resultado do trabalho ganhar vida na arena. “É gratificante concluir uma fantasia e depois vê-la no espetáculo. Também fico feliz quando minha mãe acompanha o resultado e percebe que estou dando continuidade ao que ela me ensinou”, diz.
Arte que movimenta oportunidades
Com 37 anos de atuação no Festival de Parintins, o artista plástico Mundi Lima faz parte de uma geração que ajudou a consolidar a identidade visual do espetáculo.
O interesse pela arte surgiu ainda na juventude, influenciado pelo pai, que trabalhava na produção da figura do Boi Caprichoso. Atualmente, ele coordena equipes formadas por profissionais de diferentes municípios amazonenses.
“Minha equipe é formada por pessoas de Maués, Autazes e da comunidade Cametá dos Ramos. São artesãos que encontram no festival uma oportunidade de trabalho. A partir dessa experiência, muitos também conseguem atuar em outros eventos culturais ao longo do ano”, explica.

Para Mundi, o impacto do festival ultrapassa os limites de Parintins. “Hoje o festival movimenta não apenas a cidade, mas todo o Amazonas. Muitas famílias participam dessa cadeia produtiva e encontram nesse período uma importante oportunidade de renda”.
Ele afirma que o reconhecimento do trabalho na arena continua sendo um dos momentos mais aguardados pelos artistas. “Quando a alegoria entra no Bumbódromo e vemos tudo funcionando, é a conclusão de um processo que envolve muitas pessoas e meses de trabalho”, afirma.
A força dos paikicés
Nos bastidores da arena, os paikicés são responsáveis por conduzir as alegorias durante o espetáculo. São eles que movimentam manualmente as estruturas entre os galpões, a concentração e o Bumbódromo.
Entre os profissionais está Jofre Lima, coordenador da equipe do Boi Caprichoso. Ele acumula 43 anos de atuação na agremiação e há três décadas lidera os empurradores de alegoria.
“Há 30 anos recebi a missão de coordenar os paikicés, quando as alegorias passaram a ser construídas em ferro. Desde então seguimos aperfeiçoando esse trabalho”, conta.

Segundo Jofre, a atividade beneficia diretamente centenas de trabalhadores. “Temos entre 260 e 300 paikicés. São muitas famílias que encontram no festival uma oportunidade de renda nesse período”, afirma.
Ele destaca que a função exige planejamento, organização e conhecimento técnico. “Os artistas entregam as alegorias para nós e somos responsáveis por conduzi-las até a arena. Existe uma grande responsabilidade para que tudo aconteça da forma prevista”, explica.
Economia criativa em movimento
Ao apoiar a realização do Festival de Parintins, o Governo do Amazonas contribui para o fortalecimento da economia criativa e para a geração de oportunidades em diferentes áreas ligadas à cultura. Além do espetáculo apresentado na arena, o festival mobiliza profissionais, fomenta a circulação de renda e mantém vivos conhecimentos que atravessam gerações, consolidando-se como uma das principais cadeias produtivas culturais da Amazônia.