Festival de Parintins 2026: Caprichoso e Garantido rompem padrões e ampliam presença feminina em item tradicional do festival

Tradicionalmente ocupado por homens, o item Tuxaua amplia a presença feminina e trans no Festival de Parintins

FOTOS: Jéssica Mendes/Secretaria de Estado de Cultura e Economia Criativa

Inspirado nas lideranças indígenas da Amazônia, o item Tuxaua é um dos mais emblemáticos do Festival de Parintins (distante 369 quilômetros de Manaus). Historicamente interpretado por homens, o item tem vivido uma transformação nos últimos anos. A presença crescente de mulheres como Tuxauas nos bois Caprichoso e Garantido vem ampliando a representatividade feminina em um dos papéis mais desafiadores e simbólicos do espetáculo, reforçando que liderança, força e protagonismo não têm gênero.

A ampliação da presença feminina no item Tuxaua acompanha um movimento mais amplo de valorização da diversidade dentro do Festival de Parintins, promovido pelo Governo do Amazonas, por meio da Secretaria de Cultura e Economia Criativa. Ao ocupar espaços historicamente masculinos, as mulheres reforçam o papel do festival como uma manifestação cultural em constante transformação, capaz de dialogar com as demandas contemporâneas sem perder sua conexão com as tradições amazônicas.

Na arena do Bumbódromo, essas trajetórias se transformam em arte, emoção e representatividade, evidenciando a capacidade do festival de celebrar a riqueza cultural dos povos da Amazônia e inspirar novas gerações a ocuparem espaços de liderança, expressão e pertencimento.

No Boi Garantido, esse movimento começou a ganhar força a partir de 2023, quando mulheres passaram a integrar oficialmente o item 14, abrindo caminho para novas gerações de artistas. Entre elas está Eloá Godinho, que há quatro anos defende o item e se tornou a primeira mulher parintinense a assumir a função de Tuxaua no boi vermelho e branco.

“Ser Tuxaua significa representar uma liderança indígena e mostrar que nós, mulheres, também somos capazes. É uma felicidade enorme poder mostrar que nós também somos guerreiras e que podemos ocupar esse espaço. Muitas meninas se espelham na gente. Quando elas veem uma mulher ocupando esse lugar, entendem que também podem chegar lá. Isso nos torna referência para outras mulheres”, destaca Eloá Godinho.

Ana Miranda (à esquerda), Eloá Godinho (no meio) e Aline Evelyn (à direita). FOTOS: Jéssica Mendes/Secretaria de Estado de Cultura e Economia Criativa

Outra representante feminina do item é Ana Miranda, que atua como Tuxaua há três anos e vê na arena um espaço de afirmação da liderança das mulheres. “O Garantido inovou ao trazer as Tuxauas femininas. Representamos a força, a garra e, acima de tudo, a liderança da mulher. Mostramos que somos capazes de carregar esse item com a mesma determinação e responsabilidade”, ressalta.

Segundo Ana Miranda, a emoção de entrar na arena está diretamente ligada ao significado que essa conquista representa. “Quando entro no Bumbódromo, sinto a importância da presença feminina nesse espaço. Durante muitos anos, esse foi um item representado apenas por homens. Hoje, mostramos que podemos estar em qualquer lugar, inclusive representando um dos símbolos mais importantes dos povos indígenas dentro do festival”, afirma.

A renovação também chega por meio de novas artistas. Em 2026, Aline Evelyn estreia como Tuxaua, ampliando ainda mais a participação feminina no item. Antes de assumir a nova função, Aline já integrava o item Povos Originários e agora encara o desafio de defender uma das figuras mais emblemáticas do espetáculo.

“Está sendo um turbilhão de emoções. A preparação exige muito comprometimento, mas acredito que nós mulheres merecemos estar ali. Temos garra, determinação e capacidade para defender qualquer item do festival. O nosso lugar é onde quisermos estar”, destaca Aline Evelyn.

Morubixabas do Boi Caprichoso

No Boi Caprichoso, as mulheres que representam o item são chamadas de “Morubixabas”, palavra derivada do tupi que designa o chefe, líder ou tuxaua de uma tribo. Do lado azul da Ilha, o grupo de Morubixabas reverencia as personalidades que dedicaram suas vidas à defesa da cultura, do território e das tradições indígenas, reforçando o compromisso do Festival de Parintins com a valorização dos povos originários e de suas lideranças.

Entre as representantes do item no Boi Caprichoso está Ira Maraguá, indígena que, há quatro anos, integra o grupo de Morubixabas. Para ela, ocupar esse espaço representa uma conquista coletiva dos povos indígenas e um reconhecimento das lideranças femininas que historicamente abriram caminhos para novas gerações.

“É um ato de vitória, principalmente para nós, mulheres indígenas. Temos grandes referências no Brasil, como mulheres pajés, lideranças e caciques que vêm fortalecendo nossa luta. Durante muito tempo fomos silenciados em relação à nossa língua, à nossa cultura e às nossas tradições. Hoje, poder representar nossa ancestralidade dentro do Festival de Parintins é algo maravilhoso. É uma forma de inspirar outras meninas e mostrar que podemos ocupar esses espaços. Para nós, povos indígenas, isso é uma conquista, uma vitória e uma superação”, afirma Ira Maraguá.

A valorização das mulheres indígenas também é representada por Kaila Hexkaryana, que acumula mais de uma década de atuação artística no festival e, em 2026, estreia como Morubixaba oficial do Boi Caprichoso. Natural de Barreirinha, ela destaca que a oportunidade carrega não apenas sua trajetória pessoal, mas também a história de seus ancestrais.

Ira Maraguá (à esquerda), Lup Moara (no meio) e Kaila Hexkaryana (à direita). FOTOS: Jéssica Mendes/Secretaria de Estado de Cultura e Economia Criativa

“Sempre me dediquei à arena e este ano recebi o convite para defender um item que historicamente era representado por homens. O diferencial do Caprichoso é trazer mulheres indígenas para esse papel é algo revolucionário. O homem representa a liderança, mas nós mulheres mostramos a força feminina. Carrego comigo a minha história, a minha dança e o legado dos meus ancestrais. É uma realização pessoal e um momento que certamente será inesquecível”, ressalta Kaila Hexkaryana.

A representatividade também alcança a comunidade LGBTQIA+. Em 2026, Lup Moara passa a integrar o grupo de Morubixabas, tornando-se uma das primeiras mulheres trans a ocupar a função dentro do espetáculo. Com mais de dez anos de atuação no Festival de Parintins, ela destaca a importância da oportunidade para ampliar a visibilidade de outras artistas trans dentro da cultura popular amazônica.

“Eu me sinto muito honrada por ocupar esse espaço dentro do Boi Caprichoso. É uma oportunidade de mostrar força, persistência e luta. Minha história não começou agora. Tenho uma trajetória construída dentro do festival e hoje tenho a oportunidade de representar muitas mulheres, especialmente mulheres trans indígenas. Isso é uma potência muito grande. O Caprichoso abre um caminho importante para que outras também possam chegar e ocupar esses espaços”, destaca Lup Moara.

A valorização da diversidade e o fortalecimento da representatividade nos itens oficiais refletem o compromisso do Governo do Amazonas com a promoção de uma cultura cada vez mais inclusiva e conectada às transformações da sociedade. Ao ampliar espaços para mulheres indígenas e integrantes da comunidade LGBTQIA+, o Festival de Parintins reafirma seu papel como uma das maiores manifestações culturais do país, preservando tradições ancestrais ao mesmo tempo em que fortalece o protagonismo de diferentes vozes na construção da identidade amazônica.

Você pode gostar