Nos bastidores do Bumbódromo, direção musical coordena ritmo e narrativa do Festival de Parintins

Com a largada para o 59º Festival de Parintins, nesta sexta-feira, sábado e domingo (26, 27 e 28/06), em Parintins (a 369 quilômetros de Manaus), a complexa engrenagem que sustenta o espetáculo dos bois Caprichoso e Garantido mobiliza diferentes frentes artísticas e técnicas. Entre elas, a direção musical ocupa papel estratégico na concepção e execução das apresentações, sendo responsável por conduzir a trilha sonora que integra, sincroniza e dá ritmo a todo o espetáculo apresentado na arena.
Considerada uma das dimensões avaliadas no julgamento oficial do festival, a musicalidade exige planejamento contínuo, coordenação coletiva e atuação em tempo real durante as três noites de apresentações no Bumbódromo.
O resultado apresentado no Bumbódromo é fruto de meses de preparação, ajustes e ensaios que se estendem até a véspera do festival, consolidando um espetáculo que exige precisão técnica e sensibilidade artística.
Construção começa meses antes do festival
No Boi Caprichoso, o diretor musical Márcio do Boi explica que o trabalho começa ainda na fase de produção do álbum oficial, quando são definidas as toadas que irão compor o repertório do festival. “Todo espetáculo começa na direção musical, desde a gravação no estúdio. A partir disso, inicia todo o processo de ensaios com a Marujada, com os cantores e com o levantador. É um trabalho que vai sendo construído ao longo de meses até chegar ao Bumbódromo”, afirmou.
Segundo ele, os ensaios desempenham papel fundamental na definição do repertório final, já que permitem avaliar a recepção do público e a força das composições ao longo da temporada.
“O repertório não é fechado de imediato. Ele vai sendo ajustado conforme os ensaios acontecem. A gente observa o que o público canta, o que emociona mais, e isso ajuda a definir o que vai para a arena”, explicou.

Atuação em tempo real
Durante as apresentações, a direção musical assume um papel de coordenação em tempo real, lidando com entradas, transições e ajustes necessários para manter o fluxo do espetáculo dentro do tempo regulamentar e da proposta artística de cada noite.
Márcio destaca que a função exige atenção constante e tomada de decisão imediata diante de imprevistos na arena.
“Na arena, tudo acontece ao mesmo tempo. Se uma alegoria atrasa ou um ritual ainda não está pronto, a gente precisa ajustar a música na hora, estender uma trilha ou antecipar outra entrada para manter o espetáculo fluindo”, disse.

Ele ressalta ainda que a comunicação entre os diferentes setores é contínua durante toda a apresentação. “A gente trabalha conectado com a banda, com a marujada e com os itens musicais. São muitos comandos simultâneos, sempre acompanhando o andamento do espetáculo para garantir harmonia entre música e cena”, completou Márcio.
Construção coletiva e leitura do espetáculo
No Boi Garantido, o diretor musical Enéas Dias reforça que a direção musical atua como elo entre os diversos setores do boi, traduzindo artisticamente o que é desenvolvido pelas equipes de criação.
“A música não está isolada. Ela conversa com a alegoria, com a dança e com a narrativa. A gente precisa entender tudo isso para que a toada cumpra o papel dentro do espetáculo”, afirmou.
Enéas destaca que os ensaios têm função essencial na validação do repertório, permitindo ajustes constantes antes da apresentação oficial.
“A gente testa muito nos ensaios. Observa a reação do público, sente o ritmo do boi, e a partir disso decide o que permanece, o que precisa ser ajustado ou o que pode ser substituído”, disse.

Ele explica que esse processo é dinâmico e pode sofrer alterações até pouco tempo antes do festival.
“Às vezes uma toada funciona muito bem nos ensaios, mas quando a gente pensa na arena, percebe que ela precisa de um ajuste de tempo ou de posição dentro do espetáculo. Isso tudo é ajustado com muito cuidado”, acrescentou.
Precisão e leitura constante
Durante o festival, Enéas atua diretamente na coordenação musical da apresentação, acompanhando em tempo real o andamento do espetáculo e auxiliando na condução das transições entre blocos, itens e momentos cênicos.
“Na arena, a gente está o tempo todo lendo o espetáculo. Se algo muda, a gente precisa reagir rapidamente para que o público não perceba quebra no ritmo da apresentação”, explicou.
A direção musical também desempenha papel direto em um dos critérios avaliados pelo festival: a musicalidade. Isso inclui execução das toadas, harmonia entre os setores musicais e integração com a narrativa cênica. Para ele, esse é um dos pontos mais desafiadores da função.

“A musicalidade no festival não é só tocar bem. É fazer com que tudo esteja integrado. A música precisa dialogar com a cena, com a dança e com o tempo da apresentação. Isso exige muita sintonia entre todos os envolvidos”, destacou.
Tanto no Caprichoso quanto no Garantido, a direção musical é resultado de um trabalho coletivo que envolve músicos, compositores, comissões de arte e equipes técnicas.
Com apoio do Governo do Amazonas, por meio da Secretaria de Estado de Cultura e Economia Criativa, o Festival de Parintins reafirma sua importância como um dos maiores espetáculos a céu aberto do país e como vetor de fortalecimento da economia criativa e da cultura regional.